domingo, abril 03, 2005

O Oeste ucraniano
Kamyanets-Podilsky

Como o bom viajante não pára quieto, sobretudo quando pode viajar em kardpladz nos fascinantes comboios soviéticos que ainda circulam na Ucrânia, eis-nos a caminho, não de Viseu, mas de Kamyanets-Podilsky!

Depois de mais de 12 horas de viagem, o comboio deixou-nos numa estação deserta. Tinha todo o aspecto de ser apenas um apeadeiro, o que se veio a confirmar depressa quando procuramos os horários de saída de volta a kiev. Não existiam! Não havia qualquer comboio para fora daquele lugar! Apenas umas coisas que faziam percursos locais.

O exterior do apeadeiro mostrava a antiga glória socialista, que levava o progresso até aos pequenos lugarejos. E realmente, aquando da construção, aquele lugar deveria ter sido bastante garboso. Actualmente, contudo, está sujo, degredado e é o exemplo perfeito da decadência pós soviética. Kamyanets-Podilsky é uma cidadezeca em agonia, agora que as industrias morreram todas.

Cidadezeca, como quem diz. Os padrões soviéticos são bastante alargados, em comparação com portugal. Aquela localidade pobre ainda assim estava construída numa dimensão enorme para a sua importância. Creio que isso tenha a ver com a grandeza que o regime comunista pretendia para si. Tudo era grandioso, feito à medida dos heróis do operariado, superhomens. É como na estação de kiev! Ainda tocam as marchas militares para motivar o povo!!

O tempo não tratou mesmo nada bem Kamyanets-Podilsky. O caminho da estação dos comboios para a estação dos autocarros, levou-nos por ruas esburacadas, cheias de pó, pequenos bairros residenciais extremamente degradados, uma quantidade enorme de ciganada (Kamyanets-Podilsky fica muito perto da fronteira romena, esse berço de todos os ciganos do mundo e arredores). A estação e o mercado, lado a lado, foram uma experiência só por si! Os mercados ucranianos são variadíssimos, pode-se encontrar de tudo. Neste também, com a diferença das pessoas. Camponeses e pobres ao que se podia perceber. E olhando para as famílias que por ali andavam também deu para entender quem são os ucranianos que vêm para Portugal. São da região oeste, das zonas predominante rurais, de influência histórica polaca e mais católica. Aliás, nota-se no físico. Os ucranianos do oeste e os de Portugal são muito mais arraçados com os polacos, caras largas, mais louros, mais matacões.

A estação terá sido também mais uma glória do socialismo soviético. Imagino que na sua inauguração tenha sido um leve edifício envidraçado, de arquitectura contemporânea, mas agora é apenas um barracão com paredes de vidro e umas cortinas bafientas e descoloridas.

No dito mercado notava-se claramente o peso da pobreza sobre as pessoas. É algo tangível, as pessoas são mais cinzentas, desgastadas por tudo o que passam. É um ambiente algo pesado e desagradável, que definimos como (sendo o inglês a língua franca entre um português um húngaro e uma sueca) «a shithole». E que eu, particularmente, acrescentei «The biggest shithole I've ever been to».

Andando da periferia para o centro, Kamyanets-Podilsky revelou-se uma cidade progressiva, segundo o zoltan. Começa mal para acabar bem. Depois dos subúrbios soviéticos, chegámos ao centro da cidade moderna. Também socialista, mas desta feita mais composta! Urbanização de promenades, quase tropical e com palmeiras de plástico. Tinha também um certo ar de decadência, mas não tão óbvio, como se debaixo quisesse florir um boom de crescimento. Uma decadência meio alegre onde os ucranianos se sentam à beira de uma fonte seca a apreciar o sol! E até mostrou que poderia ser uma cidade agradável com investimento na renovação e limpeza.

Ora chegados aqui, encontramos uma ponte sobre um enorme desfiladeiro, e do outro lado, no topo do monte, aquilo que procurávamos, a antiga cidade, o núcleo histórico. Curiosamente, após os primeiros minutos de passeio pelas ruas pequenas, a sensação mais discernível era a de estarmos numa vila portuguesa, do interior esquecido. As ruas eram as mesmas, de empedrado, e até os edifícios tinham aquela mesma arquitectura rural, não sendo difícil encontrar aqui e ali pérolas esquecidas do passado. Uma entrada do que pareceu ser uma antiga muralha, igrejas tão velhas que estavam a cair em ruínas. Com efeito, Kamyanets-Podilsky está esquecida! Todas aquelas jóias arquitectónicas estão simplesmente ao abandono. Vê-se já algum investimento na renovação, mas continua a ser residual. Por exemplo, no centro histórico vimos apenas 3 restaurantes, todos eles pequenos e nem por isso turísticos. Deu a impressão que daqui a 20 anos, aquele centro historico, se vai transformar numa espécie de Bruges, um recreio turístico. Mas se isso significa salvar todos aqueles edifícios parece-me muito bem!

Talvez que este sentimento de semelhança com Portugal se deva aos polacos. Boa parte daquela cidade foi edificada pelos polacos, quando a polónia ainda era polónia e quando a polónia costumava ficar na verdadeira localização histórica da polónia! Daí também o seu aspecto rural (os polacos são geneticamente camponeses, católicos e idotas como os portugueses).

O centro historico encontra-se numa colina, rodeada pelo desfiladeiro, mas a verdadeira glória de Kamyanets-Podilsky encontra-se mais adiante, numa outra ilha, isolada no meio do desfiladeiro também: o castelo!

É absolutamente lindo! A cidadela do castelo é como tantas outras, algumas muralhas com torreões a pontuá-las. A parte interessante é a vista que se tem lá de cima e as traseiras do castelo, cheias de elevações artificias e um complexo enorme de túneis e caves, que serviriam provavelmente de espaço de armazenamento e de passagem secreta entre o castelo, no topo, e o rio que cruza o desfiladeiro lá em baixo. Perdi-me que nem um puto!! Adoro castelos! Ainda mais aquele parecia saído duma história romanesca da idade média, só faltava saltar dalgum canto o rei Artur! (Hei-de por aqui algumas fotografias entre hoje e amanhã.)

Como sempre tivemos que sair a correr e não tivemos tempo para explorar o desfiladeiro lá em baixo, onde havia muitos pontos de interesse, entre eles uma igreja toda construída em madeira com um aspecto notavelmente antiquíssimo.

Fizemos uma viagem de autocarro de duas horas até à cidade mais próxima onde poderíamos apanhar um comboio para o próximo destino. A viagem foi bem interessante, pois pudemos ver paisagens que o comboio normalmente não atravessa. Ficamos todos de acordo que aquela zona não parece tão pobre quanto esperávamos e como seria natural de esperar depois de termos visto os arredores de Kamyanets-Podilsky. Haviam muitas casas boas, uma versão ucraniana dos subúrbios norteamericanos de bairros de casas unifamiliares de classe média. Suspeito que em parte isso se deve à imigração ucraniana e as remessas que mandam de volta para o país. Possivelmente também de Portugal.

Chegados então à cidade placa giratória Khmelnytsky e com umas 4 horas para matar até ao comboio sair, fomos ao guia consultar o que dizia sobre pontos de interesse. Nada!!!! Nem sequer tinha o capítulo de sightseeing!!! Apenas referia que era uma cidade moderna e para parar lá só em caso de necessidade. Mesmo assim não desmoralizamos e fomos até às ruas do centro comprar o jantar. E que agradável surpresa. Khmelnytsky estava cheia de mulheres boas e sofisticadas, ainda mais do que em kiev. Que coisa estapafúrdia!! E tinha também um ambiente de festa. Estava a ocorrer um concerto no que pareceu ser a praça principal... mas no escuro... ainda não há dinheiro para iluminar tudo!

No dia seguinte então desembarcámos em Dnipropetrovsk.

O leste Ucraniano
Dnipropetrovsk

Terceira cidade da Ucrânia, situada no que geralmente se designa por leste russófono, industrial, é o paradigma de cidade pós industrial. A economia foi tomada por grupos mafiosos oligarcas e o submundo é abundante!

Mas há que referir que a avenida principal de Dnipropetrovsk, que vai de uma ponta à outra da cidade (como se a avenida da liberdade fosse do terreiro do paço ao aeroporto), chama-se KARL MARX, da qual por acaso eu tenho uma fotografia da minha bela pessoa debaixo da placa com o nome da avenida em russo. Interessante é também o facto de a praça principal, atravessada pela Karla Marxa, chamar-se Lenine e ter uma gigantesca estátua do dito bem à frente dum edifício que outrora deve ter sido governamental e cuja fachada está proficuamente decorada com foicezinhas, martelinhos e estrelinhas. É uma bela praça!!!! Comentámos muitas vezes o que teria sido do socialismo se não tivessem gasto o dinheiro todo em armas. Se já assim a arquitectura comunista era grandiosa, linda, muito decorativa, imaginem como poderia ter sido se houvesse mais fundos.

Mas, sinal dos tempos, mesmo por cima da cabeça do Lenine, nesse mesmo edifício que terá sido sede do poder comunista, está agora o maior anúncio em néon que alguma vez vi... ao macdonald's! É um INSULTO!!! É típica arrogância capitalista. Já que os ucranianos se recusam a tirar aquelas estátuas e a mudar os nomes às ruas então tomem lá uma cagada de pombo gigante no vosso orgulho histórico, na vossa tradição! Aquele símbolo do macdonalds é claramente ideológico e mostra muito bem o que é a transição democrata na ex-urss. Felizmente as pessoas parecem-me ser mais sábias do que isso e resistem! Votam Yanukovitch!

De uma forma geral Dnipropetrovsk é uma cidade bem agradável, longe de ser miserável, nota-se que tem uma vida económica energética, embora injusta e muito pouco distributiva. Tem uma arquitectura predominantemente de estilo socialista grandioso, com certos ares de Budapeste, muito decorativa, embora não necessariamente intricada nas decorações. Nas margens do rio, o perfil muda. É residencial, quase rural, cada casinha com uma porção de horta ou algo semelhante. Com efeito, isso é algo que reparei também em kiev. As cidades cresceram tão depressa que engoliram pequenas aldeias à sua volta. Mas curiosamente, essas aldeias mantiveram-se de pedra e cal, a cidade simplesmente passa-lhes à volta. É também uma zona claramente mais pobre e degradada. Muito perto destas casitas de aldeia estão algumas ex glórias socialistas, como um pavilhão desportivo a cair de podre. Contudo, o mural na entrada ainda se mantém intacto e é de uma beleza estonteante. Cores muito vivas, amarelos, azuis e variados tons de vermelho representando ideal socialista de juventude, força e vigor.

A outra margem do rio está cheia de blocos de apartamentos e zonas fabris, com enormes chaminés e complexos de lata ondulada. O rio é bastante largo, como o Tejo e seria tão bonito não fosse o mau tratamento que lhe dão. Os ucranianos são culturalmente porcos!! Deitam lixo em todo lado, em todo o lado mesmo!!

Para ser um pouco mais justo, creio que isso se deve ao facto de haver um serviço de recolha e tratamento de lixos muito deficiente e apenas nos centros urbanos. Não é raro ver babushkas à beira da estrada a queimar montículos de lixo.

Dnipropetrovsk mais uma vez alargou o nosso leque de conhecimentos. Duas moças universitárias deram-nos um tour pela ilha de veraneio, com porções de areia que eles chama praia, mas na verdade são apenas dois palmos. Muito simpáticas, uma delas o zoltan está convencido que era lésbica, estudavam línguas e pertenciam àquela juventude reformista que vê em Yushenko uma esperança de endireitar o país. Espero que não se venham a desiludir, para bem da própria Ucrânia! Seria um desperdício alienar um país assim tão lindo.

A parte recente de Dnipropetrovsk, muito provavelmente responsabilidade dos oligarcas, está representada por duas enormes torres gémeas, cilíndricas, fálicas, o símbolo do novo poder. Nojentas!!!

Mas à sua volta ainda se encontram os bairros mais antigos, pré soviéticos, bem agradáveis, com poucos andares e fachadas de tijolo, com motivos decorativos, ainda que, por vezes, mal conservados. O tijolo parece ser o material dos pobres, mas os ucranianos, tal como os portugueses desenvolveram o azulejo, parecem ter desenvolvido a arte de construir em tijolo, conseguindo fachadas bastante airosas, com varandins e culunatas e pequenos relevos que quebram a monotomia dos edifícios típicos de tijolo, cujo arquétipo pode ser encontrado na Polónia. Além disso os ucranianos pintam os tijolos com cores variadas, dando vida às ruas, amarelos, verdes, azuis, vermelhos, são cores normais nas fachadas ucranianas.